4. REPORTAGENS maio 2012

1. CAPA  MEU FILHO  UM PSICOPATA
2. TECNOLOGIA  O LABORATRIO SECRETO DO PENTGONO
3. CINCIA  TUDO O QUE VOC SEMPRE (NUNCA) QUIS SABER SOBRE AS BARATAS
4. CINCIA  SUPER POLIGLOTAS
5. ZOOM  PENDURANDO OS MOTORES
6. TECNOLOGIA  O PODER DA MASSA
7. TECNOLOGIA  O PODER DA MASSA

1. CAPA  MEU FILHO  UM PSICOPATA
Sim, maldade pura existe. Ela  muito pior do que voc imagina. E pode comear j na infncia.
TEXTO EDUARDO SKLARZ
DESIGN JORGE OLIVEIRA E RICARDO DAVINO
ILUSTRAES DANILO KATO
(*os nomes foram trocados para preservar a identidade das pessoas)

Para mim, isso era coisa de filme. Do outro lado da linha, com a voz embargada, Jussara*  conta  SUPER como percebeu coisas estranhas no comportamento do filho quando ele tinha apenas 6 anos.  Embora o diagnstico de psicopatia s possa ser feito formalmente aos 18 anos,  possvel captar sinais bem antes disso.  As crianas psicopatas mentem muito, so manipuladoras, impulsivas e extremamente egocntricas.  Tambm   so cruis.  Podem queimar um cachorro ou estripar um gato.  Sufocar um irmo com um travesseiro sem sentir culpa ou remorso.  Tentar queimar ou explodir coisas.  Mais tarde, na adolescncia, podem praticar vrios tipos de crime, de simples roubo a atos de violncia sexual e homicdios com requintes macabros.  Tudo sem que hajam um motivo ou fator causador, a no ser o puro instinto.  E tudo sem que os pais possam fazer muita coisa  pois estudos sugerem que a psicopatia pode ser causada por problemas estruturais no crebro, e no pode ser anulada por uma boa educao.   como se os psicopatas j nascessem sentenciados a serem maus; suas famlias, a conviver com isso.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

O IMPULSIVO
As vezes, eu acordava no meio da noite e ele estava nos observando dormir. Percebi que nos mataria a qualquer momento.
NATLIA, ME DE GUSTAVO. ARGENTINA.
     Desde pequeno, Gustavo batia nos pais e em outras crianas. Era algo to grave e to constante que o levou a ser internado aos 13 anos num hospital psiquitrico, onde ele ficou por um ano e meio. O tratamento no surtiu efeito. Sua me, Natlia*, se sentia culpada e humilhada pelas outras pessoas. Diziam que eu permitia os abusos dele, que bastaria dar uns tapinhas, afirma. Minimizavam a situao, falavam que Gustavo tinha apenas uma adolescncia conflituosa. O garoto roubou dinheiro da famlia, destruiu a casa 3 vezes, cortou a orelha do pai e golpeou as costelas da me, que foi parar no hospital por isso. s vezes, eu acordava no meio da noite e ele estava nos observando dormir. Percebi que nos mataria a qualquer momento, conta Natlia: Enfrentei todas essas situaes, esperei o que estipula a lei (proteg-lo at os 21 anos) e dei por terminado esse calvrio. No o vejo mais. Natalia tomou a deciso em 1993, aps fazer terapia e decidir que o filho era irrecupervel. O casal acabou expulsando o garoto de casa  por puro medo de ser assassinado. Muitas mes continuam carregando essa situao nos ombros. Outras morrem nas mos de seus filhos, afirma. Gustavo  a minoria da minoria. H crianas que so agressivas e perversas como ele era na infncia  mas no necessariamente se tornaro adultos problemticos. Elas batem nos irmos e tiram objetos dos pais, por exemplo, mas tudo passa aps uma etapa de ajuste. No podemos jamais concluir que crianas com distrbios de comportamento sero psicopatas no futuro. Por isso, no se d o diagnstico de psicopatia antes dos 18 anos, diz o psiquiatra forense Guido Palomba. Mas algumas crianas que apresentam esses distrbios vo, sim, se tornar adultos psicopatas, por mais acompanhamento e tratamento que recebam.  o caso de Gustavo: ele nasceu e vai morrer assim. Hoje, aos 40 anos, busca contato com os parentes  mas s para prejudic-los. Roubou objetos dos pais na nica vez que o deixaram entrar em casa. Continuo em terapia porque a dor de perd-lo foi dilacerante. Senti culpa e saudade, mas sei que para ele eu no valho nada, diz Natlia.

O PREDADOR
H filhos que so assim. No importa o que voc fizer, eles vo sempre desrespeitas, ameaar, desprezar e odiar voc
BARBARA, Me de GORDON. EUA
     Os pais de Gordon* suspeitaram cedo de seu carter amoral. Desde que ele mamava no peito, eu percebi que no estabelecia um vnculo afetivo. Mas ele era agradvel com as outras pessoas, to charmoso e atraente, no me preocupei muito, diz Barbara*, a me. Aos 7 anos, vi que algo realmente estava mal: eu tinha de mant-lo longe dos dois irmos mais novos para evitar que os agredisse. E o peguei abusando sexualmente da gata do vizinho, diz ela.
     Aos 12, Gordon foi acusado de abuso sexual contra uma mulher. Passou alguns anos detido por essa e outras 7 aes do mesmo tipo. Sempre negou a culpa. Ns demos educao, carinho, viagens, imveis  e ele arruinou tudo, conta a me. Ele tinha sempre um motivo para pedir dinheiro emprestado, que nunca devolvia. Nos extorquiu US$ 200 mil, afirma ela.
     Hoje, aos 24 anos, Gordon  pai de um menino de 4. Meu maior temor  que ele faa mal a meu neto, que vive com a me a 3200 km da cidade onde eu e meu filho vivemos, diz Barbara, que teme at revelar a cidade onde mora. Hoje, Gordon tenta se abrigar na casa de desconhecidos, que conhece em pontos de venda de drogas. Predadores so predadores, mesmo que sejam nossos filhos. No importa o que voc fizer, eles vo sempre desrespeitar, ameaar, desprezar e odiar voc. Negar esse fato s causa mais dor, diz Barbara.
     Ao contrrio dela, a maioria das mes no consegue enxergar que o filho  um psicopata. Mas o transtorno de personalidade comea a dar sinais desde bem cedo, por volta dos 6 anos  em casos extremos, at antes. A professora do jardim de infncia nota que a criana no obedece a ordens, comete atos muito agressivos e age de forma independente do grupo, explica o psiquiatra Hugo Marietan, da Universidade de Buenos Aires, que estuda psicopatas h 20 anos. Isso acontece porque o psicopata  uma unidade em si mesmo. Enquanto as outras pessoas se apoiam em redes afetivas, seja de parentes seja de amigos, ele no necessita de ningum.
     Gordon nunca teve um amigo verdadeiro. E isso faz todo o sentido: os psicopatas no entendem a amizade. Para eles, no passa de um sinal de fraqueza. 

O INDIFERENTE
Ele no demonstrou remorso, e estava at desfrutando ser o centro das atenes.
KATHERINE RAMSLAND,
PSICOLOGA FORENSE. EUA.
     Em 1986, o americano Jeffrey Bailey Jr, de 9 anos, foi deixado sozinho com o amiguinho Ricky Brown, de 3. Jeffrey sabia que o menino tinha medo de gua e no sabia nadar. Mesmo assim, levou-o para a piscina e o empurrou l dentro. Ricky se debateu por vrios minutos, gritando por socorro. Em vez de estender o brao, Jeffrey puxou uma cadeira para assistir  morte do menino. Depois foi para casa, diz a psicloga forense Katherine Ramstand, da Universidade DeSales, nos EUA. Ao se encontrar com um vizinho, Jeffrey perguntou o que era a gosma branca que sai do nariz de uma pessoa que se afoga. A polcia encontrou o corpo de Ricky s 18h40, cerca de 8 horas aps o afogamento. Foi um acidente, mentiu Jeffrey. Ao ser interrogado, o garoto se mostrou indiferente  morte do amigo. Ele estava mais preocupado em ser o centro das atenes do que em sentir qualquer tipo de remorso pelas coisas que havia feito, conta Ramsland.
     A histria ajuda a entender a mente psicopata.  comum que crianas (normais) tenham dificuldade de lidar com emoes. Podem ser impulsivas, narcisistas ou agressivas, bater nos irmos por cime ou egosmo. Mas quando uma criana comete atos assim por sadismo, e sem sentir remorso ou culpa, pode-se suspeitar de psicopatia, diz o psiclogo forense americano Carl Gacono. Outro elemento  a falta de empatia, a incapacidade de se colocar no lugar do outro. Segundo Gacono, esses 4 sinais  sadismo, falta de remorso, falta de culpa e ausncia de empatia  podem ser detectados entre 6 e 9 anos, quando a personalidade est se formando.


O SUICIDA
A maioria dos especialistas  despreparada. Sempre diziam que o problema era da criao. E meu filho foi, piorando.
JUSSARA, 40 ANOS, PROFESSORA, ME DE BRUNO, 24 ANOS.
     Aos 6 anos Bruno* no demonstrava emoes nem vnculo afetivo. S apatia. Depois o garoto se tornou agitado e manipulador. A me, Jussara*, o levou a vrios mdicos no ABC paulista. Todos disseram que era apenas ansiedade. E Bruno foi ficando cada vez pior  tentou suicdio 3 vezes. Depois dos 18, finalmente recebeu um diagnstico concreto: transtorno de personalidade. Eles [os mdicos] disseram que meu filho no pode viver em sociedade. Foi duro escutar isso. Me de 4 filhas mais novas, Jussara diz que o melhor para Bruno seria permanecer internado. O problema  que as clnicas no o aceitam. Alm dos laudos mdicos, j precisei de vrias liminares para que o internassem, afirma. Entre um hospital e outro, Bruno se envolveu romanticamente com duas enfermeiras, uma das quais o ajudou a fugir. Ele nunca fez mal aos outros porque a famlia agiu desde cedo para cont-lo, com remdios e internaes, diz a me. Hoje com 24 anos, o rapaz est desaparecido h um ms. Provavelmente virou um andarilho, acredita Jussara, que teme ser responsabilizada por atos violentos do filho contra outras pessoas. E se amanh acontecer alguma coisa na rua, como os casos monstruosos que vemos na TV, a culpa vai ser de quem?


O INCENDIRIO
Ele era uma panela de presso prestes a explodir sem motivo aparente, ou quando era contrariado.
CLAUDIA, 56 ANOS, ESTUDANTE DE DIREITO, ME DE ANDR, 33, SO PAULO
     Andr* tinha 3 anos quando comeou a fazer terapia. Segundo Claudia*, a me, era muito arteiro. Ele queimava os brinquedos e depois apagava com gua e terra. Aos 4, queimou um armrio inteiro que ficava fora da casa. Uma vez colocou fogo debaixo do carro usando papel e fsforo, e por sorte no houve uma exploso. Eu e meu marido demos uma bronca, como qualquer pai faria, diz Claudia. Os especialistas disseram que o menino era hiperativo com dficit de ateno. Ele era simptico e conversador, mas mentia demais, e com extrema convico.
     Aos 15 anos, Andr entrou numa fase mais agressiva. Ele nos xingava e dizia que ia nos matar. Que explodiria uma bomba em casa. Tentava montar artefatos com fios e adubo do jardim. Eu dormia trancada no quarto com meu marido e o outro filho, diz a me. Uma vez, ele pegou uma faca e veio andando em nossa direo completamente surtado. Foi necessria a interveno da polcia, que  despreparada para lidar com pessoas nesse estado.
     J adulto, Andr foi diagnosticado com transtorno antissocial  equivalente, no caso dele, a psicopatia. Ele tem atitudes inesperadas. Age como uma pessoa normal e tem inteligncia admirvel. O problema  quando explode, diz Claudia. Segundo ela, o pior de ter um filho problemtico  a incerteza constante. Uns dias so melhores, outros piores, e voc nunca sabe o que vir. No est escrito na testa que eles so psicopatas. Passaro pela vida sem que as outras pessoas saibam. Ns, como pais, s queramos que fossem pessoas capazes de conviver em sociedade, trabalhar, criar e manter suas famlias. Principalmente, que fossem felizes. Hoje, aos 33, Andr trabalha como tcnico em computao e ainda mora com os pais. Ele tem ficado mais tranquilo com o tempo. Rezo para que continue assim, diz Claudia. 

O SDICO
Um assassino assim no pode viver em sociedade.
ARI FRIEDENBACH, PAI DE UMA DAS VTIMAS, BRASIL.
     Roberto Aparecido Alves Cardoso sofreu anxia (falta de oxignio) durante o parto. Dezesseis anos mais tarde, arquitetou o assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach, de 16, e Felipe Caff, de 19. Roberto Cardoso  o Champinha, autor de um dos crimes mais famosos do Brasil recente. Qual a ligao entre as duas coisas? Ele  considerado um pseudopsicopata, ou seja, uma pessoa que se comporta como psicopata devido a um dano fsico sofrido pelo crebro  no caso, a anxia.
     Champinha estuprou Liana por 5 dias e depois a matou a facadas. Felipe recebeu um tiro na cabea. Os comparsas de Champinha foram condenados a 177 anos de priso. Como era menor, ele foi para a Fundao Casa e em 2007 foi internado na Unidade Experimental de Sade (UES), em So Paulo, onde est at hoje. No ano passado declarou, por meio de seu advogado, que no v sentido em ficar preso e gostaria de estudar para ser veterinrio. Sua rotina na UES se resume a comer, dormir e assistir aos jogos do Corinthians.
     Pessoas como ele poderiam um dia ser reintegradas  sociedade? Talvez no. A maioria dos especialistas acredita que a psicopatia tenha um componente gentico. Segundo essa teoria, uma boa educao no seria capaz de impedir que a criana se tornasse m. No mximo atenuar o transtorno. Em vez de assassino, o indivduo poderia virar um executivo inescrupuloso ou um poltico corrupto, por exemplo.

O ASSASSINO SERIAL
Ele era o meu queridinho. E ainda .
CATHY, ME DE STEVEN GRIEVESON, 41, INGLATERRA.
     Steven cresceu cercado pela violncia. Meu marido me batia e eu revidava, contou a me, Cathy, ao jornal britnico The Guardian. Steve era um dos meus 7 filhos. Ele era o meu queridinho. E ainda . Apenas se meteu em problemas. Aos 11 anos, o menino comeou a roubar e foi levado a um lar para menores infratores, onde ficou at os 18. A me diz que ele sofreu abusos l (tanto que a instituio acabou sendo fechada). A partir da, Steven viveu entrando e saindo da priso: foram 38 condenaes por roubos e posse de drogas. At que em 1993, aos 23 anos, finalmente saiu do limite: estrangulou e queimou Thomas Kelly, de 18, num terreno abandonado de Suderland, na Inglaterra. No ano seguinte, fez o mesmo com David Hanson e Gavid Grieff, ambos de 15. Foi condenado  priso perptua em 1996. Segundo o promotor, Steven matou os meninos para que parassem de dizer que ele era gay. Diante da me, no entanto, Steven nunca confessou o crime. Sei que ele no vai sair da priso enquanto eu estiver viva. Mas eu ainda o amo. Nunca poderia ir contra ele porque  meu filho.

O TORTURADOR
Brian levou 2 tiros. Christina foi desmembrada. Sua cabea e suas mos desapareceram.
KATHERINE RAMSLAND
PSICLOGA FORENSE, EUA.
     O americano Jason Massey tinha 9 anos quando matou o primeiro gato. Gostou. Nos anos seguintes, dissecou dezenas de outros, que pegava perto de casa. Psicopatas como ele tm uma curiosidade mrbida por animais domsticos. Espetam os olhos de tartarugas, estripam pssaros para saber o que h dentro, botam fogo num co s para v-lo correr. E no se horrorizam com isso. Na verdade, desfrutam do sofrimento alheio e no se importam em carregar a imagem de sdico. Jason tinha essa fama. Um exemplo: Na adolescncia, supostamente matou o cachorro de uma garota que no quis ser sua namorada, diz a psicloga forense Katherine Ramsland.
     Em seu dirio, Jason registrou fantasias de estupros e canibalismo com mulheres. Seu dolo era Ted Bundy, famoso psicopata americano que seduzia jovens para depois estupr-las. Bundy matou pelo menos 30 mulheres antes de ser executado na cadeira eltrica, em 1989. Jason queria superar essa marca. Em julho de 1993, aos 20 anos de idade, foi apresentado por um amigo a Christina - de apenas 13 anos. Confessou ao amigo que gostaria de mat-la. Roubou uma arma calibre 22 e comprou munio, facas e algemas.
     Poucos dias depois, Jason convenceu Christina a passear com ele de carro no meio da noite pelo interior do Texas. Christina levou junto o amigo Brian, de 14. Foi o ltimo passeio deles. Brian levou dois tiros. Christina foi desmembrada. Sua cabea e suas mos desapareceram, conta Ramsland. A garota levou dezenas de facadas. Teve as vsceras removidas e os mamilos cortados. Jason foi julgado pelos crimes e condenado  morte por injeo letal, em 2001.
     A cincia ainda tenta explicar o que est por trs de condutas to extremas. E algumas pistas tm surgido. O mdico forense Guido Palomba examinou vrios indivduos com distrbios de comportamento. E observou uma caracterstica peculiar nos crebros de pessoas sdicas. A constituio anatmica era igual  do crebro de um epilptico, com assimetria entre as duas metades, diz Palomba. Isso sugere que comportamentos radicalmente violentos podem ter raiz neurolgica  e gentica.

O PEDFILO
Ele mente at o ltimo minuto possvel. S admite a verdade quando v que no tem sada.
MARCIA, 43 ANOS,
ME DE RAFAEL, 25, SO PAULO.
     Rafael* foi adotado aos 3 anos. Mrcia*, a me adotiva, o encontrou num abrigo para menores. Antes disso, ele passou por situaes de violncia e privao de comida, diz. Conforme foi crescendo, comeou a fazer coisas ruins. Roubou celulares de amigos e abusou sexualmente da irm mais nova. No chegou a violent-la, mas abusou dela por muitos anos, diz Mrcia. S descobrimos quando ele saiu de casa, aos 18 anos, aps assediar uma vizinha. Rafael foi diagnosticado com personalidade antissocial agravada por pedofilia. Hoje, aos 25,  pai de um menino de dois anos, que mora com a me. Nossa maior preocupao  que ele se aproxime da criana, diz Mrcia.  difcil para as pessoas entenderem a situao porque ele parece muito bonzinho, cativa todo mundo. Rafael mora num apartamento alugado pela famlia.

O PERVERSO
Ele atirava fezes nas pessoas e praticava atos sexuais com outras crianas.
MDICO QUE EXAMINOU O GAROTO. BRASIL.
     Aos 9 anos, o paulista Bernardo* e enforcou a empregada de sua casa usando uma gravata que pertencia ao pai. Ele passou a gravata em torno do pescoo da mulher, fez um lao num cano e puxou. Bernardo no chegou a suspender sua vtima. Ela desmaiou e acabou se enforcando com o prprio peso. Um ato de crueldade inimaginvel e que se encaixava na personalidade psicopata do garoto.
     O menino apresentava um distrbio de comportamento violentssimo. Esfregava fezes na parede ou as atirava nas pessoas. Tambm tinha perverses sexuais com crianas do mesmo sexo, revela, sob anonimato, o mdico que o atendeu. O garoto no era vtima de pedfilos maiores de idade. Ele  que tomava a iniciativa das aes sexuais. Pegava pedaos de madeira para empalar outras crianas, por exemplo. O caso da empregada foi abafado pela famlia, e no houve punio para Bernardo.
     Assim como ele, os psicopatas tm uma gama de sentimentos reduzida. No sentem ternura, amor, solidariedade ou tristeza. Vivem num pndulo entre duas emoes bsicas: o entusiasmo (para buscar os objetivos) e a ira (quando se frustram por no realiz-los), diz o psiquiatra Hugo Marietan. Mas estudam os sentimentos das outras pessoas com o objetivo de manipul-las. O choro do psicopata no  espontneo, e sim puro teatro para conseguir alguma coisa. Ele despreza os colegas ao v-los rindo ou chorando. Um outro jeito de ver a vida.

PARA SABER MAIS
The Clinical and Forensic Assessment of Psychopathy: A Practitioners Guide
Carl B. Gacono, Lawrence Earlbaum Associates 2000.


2. TECNOLOGIA  O LABORATRIO SECRETO DO PENTGONO
Eles inventaram a internet e o GPS. Hoje desenvolvem robs cirurgies, sistemas de controle da mente e a cura da obesidade. Saiba o que est acontecendo na Darpa  a diviso de alta tecnologia do Exrcito americano. Um lugar onde o impossvel no existe.
TEXTO CAMILLA COSTA E BRUNO GARATTONI
DESIGN RICARDO DAVINO

     Se voc pudesse inventar qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, o que voc inventaria? Uma mquina capaz de ler os pensamentos das outras pessoas? Um avio ultrarrpido, capaz de atravessar o mundo em uma hora? Ou simplesmente uma frmula para poder comer  vontade sem engordar? Parece incrvel, mas existe um laboratrio tentando criar todas essas coisas, e outras tecnologias igualmente mirabolantes: a Darpa (Agncia de Defesa para Projetos de Pesquisa Avanados), diviso de estudos cientficos do Pentgono. Sua misso  transformar qualquer sonho tecnolgico, por mais ousado que seja, em realidade. Os nossos projetos comeam quase impossveis, depois passam a ser improvveis, e acabam se tornando inevitveis, disse a ex-diretora da agncia, Regina Dugan, durante o evento de palestras TED. Ela anunciou que est deixando a agncia para ir trabalhar numa empresa com fama igualmente inovadora: o Google.
     A histria da Darpa comea em 1957, quando a antiga Unio Sovitica lanou o satlite Sputnik. O governo dos EUA ficou preocupado, porque seu prprio programa de satlites, que estava sendo tocado pelo Exrcito e pela Marinha, estava bem atrasado em relao aos russos. A primeira tentativa de lanamento foi um fracasso total. Isso levou os americanos a uma concluso: era preciso criar uma agncia independente, que concentrasse toda a pesquisa tecnolgica militar e tivesse o mximo possvel de autonomia. Nascia a Darpa  que naquela poca no tinha o D de defesa e se chamava apenas Arpa. Mas j foi um nascimento conturbado. O presidente Dwight Eisenhower, convencido de que o programa espacial deveria estar separado das pesquisas militares, criou a Nasa  e tirou da Arpa projetos que ela tinha fundado, como os foguetes que levaram o homem  Lua entre 1968 e 1972, e o NAVSAT, programa que permitia navegar usando computadores para triangular sinais de satlite  que mais tarde deu origem ao GPS.
     Esvaziada pela criao da Nasa, a Arpa virou um depsito de projetos que ningum queria. Como um imenso computador de 250 toneladas, construdo para um antigo projeto da fora area. O diretor da agncia na poca, Joseph Licklider, teve a ideia de usar essa mquina em pesquisas sobre informtica. E isso mudou tudo.
     Em 1968, a Arpa apresentou 4 invenes bombsticas de uma s vez: o primeiro editor de texto, o primeiro mouse, o primeiro videochat e o primeiro sistema de hipertexto (os links que hoje esto presentes nas pginas da internet). Tambm havia uma quinta, que passou meio despercebida  uma tal rede experimental de computadores, que foi batizada de Arpanet e interligava as mquinas da agncia. Essa rede viria a se tornar, alguns anos depois, a internet. E assim a agncia desprezada, com projetos que ningum queria, tinha criado a maior inveno do sculo 20. A proposta  evitar que novidades tecnolgicas possam dar vantagem a outros pases, diz Anthony Tether, diretor da Darpa de 2001 a 2009. E ns descobrimos que a melhor maneira de fazer isso  cri-las ns mesmos.
     Metade dos projetos desenvolvidos pela agncia  totalmente confidencial. A outra metade  apenas semi-confidencial  e absolutamente impressionante. Vrias vezes as coisas do errado, mas a capacidade de sonhar alto e mostrar resultados (a maioria dos projetos tem de evoluir para um prottipo em no mximo 4 anos) transformou a Darpa num dos principais centros de pesquisa do mundo. A agncia tenta inventar novidades que possam, a curto ou a mdio prazo, servir s foras armadas americanas. Mas, na prtica, suas invenes acabam tendo um impacto muito maior e transformando a rotina de todo mundo. Sem as tecnologias desenvolvidas para a guerra, a vida em tempos de paz no seria a mesma.

O NOME DISSO
A Darpa costuma dar nomes curiosos a seus projetos, em que as palavras so abreviadas para formar siglas chamativas  e engraadinhas.
1. NACHOS - Acrnimo de Nanoscale laser systems: um tipo de mquina que emite um feixe de laser muito pequeno.
2. VADER - Sem parentesco com o Darth, o Vehicle and Dismount Exploitation Radar  um sistema que permite localizar veculos no campo de batalha.
3. CRASH - O projeto Clean-Slate Design of Resilient, Adaptive, Secure Hosts tenta criar computadores que sejam capazes de se recuperar sozinhos aps um ataque de hackers.
4. BaTMAN E RoBIN - Compreender melhor como o crebro toma decises.  isso o que quer o projeto Biochronicity and Temporal Mechanisms Arising in Nature e Robustness of Biologically-Inspired Networks.

BEIJA-FLOR ESPIO
Qual  a ideia: Criar um pssaro-rob que possa filmar e fotografar uma rea sem ser detectado pelo inimigo.
O que esto fazendo: A Darpa j possui um prottipo do bichinho, que  muito parecido com um beija-flor de verdade e reproduz perfeitamente os movimentos de um: voa, fica parado no ar, mergulha e sai em disparada.
CHANCE DE DAR CERTO: 4 estrelas e meia (informao da digitadora: sempre sero no mximo 5 estrelas)

CARRO TRANSFORMER
Qual  a ideia: Um jipe militar que possa se transformar em helicptero e sair voando em poucos segundos.
O que esto fazendo: As empresas americanas AAI e Lockheed Martin, parceiras da Darpa, j apresentaram ideias factveis para o veculo e esto produzindo prottipos que sero testados ainda este ano. O jipe voador poder driblar os dispositivos explosivos improvisados (IEDs), bombas caseiras que os insurgentes do Iraque e do Afeganisto tm o hbito de enterrar nas estradas onde passam veculos dos EUA e que so responsveis por 63% de todas as mortes de soldados americanos na regio. Segundo a Darpa, ele dever ser capaz de carregar 450 quilos, incluindo armas leves e pelo menos 4 soldados, e ser fcil de pilotar. Especialistas em defesa tm questionado o projeto. Eles dizem que, mesmo que ande e voe bem, o jipe voador ser alvo fcil para os insurgentes  que simplesmente passaro a usar outro tipo de arma, o lanador de granadas (RPG).
CHANCE DE DAR CERTO: 3 estrelas

ISCA PARA RELMPAGOS
Qual  a ideia: Evitar que tropas americanas sejam atingidas por raios. 
O que esto fazendo: Em parceria com universidades americanas, a Darpa est desenvolvendo um sistema de foguetes antirrelmpago. Eles so lanados do cho e funcionam da seguinte maneira. Primeiro, o soldado aponta o lanador de foguetes para uma nuvem de tempestade, visivelmente carregada. Os foguetes, que so conectados ao solo por fios de cobre, sobem e ficam pairando abaixo das nuvens  onde funcionam como para-raios, atraindo e descarregando os relmpagos.
CHANCE DE DAR CERTO: 2 estrelas e meia

AVIO HIPERSNICO
Qual  a ideia: Uma aeronave capaz de atravessar o planeta em 1 hora. 
O que esto fazendo: O prottipo j existe, e se chama Falcon HTV-2. Trata-se de um avio no-tripulado que atinge Mach 20, ou seja, 20 vezes a velocidade do som (aproximadamente 25 mil km/h), o suficiente para ir de So Paulo a Nova York em menos de 20 minutos. Para atingir essa velocidade, o HTV-2 utiliza um novo tipo de motor e um conceito aerodinmico diferente: as asas so integradas  prpria fuselagem, o que diminui a resistncia do ar. O avio foi testado duas vezes em 2011. Em ambas, saiu do controle aps alguns minutos de voo. E a Darpa decidiu abandonar o projeto  que agora dever ser repassado  Aeronutica dos EUA.
CHANCE DE DAR CERTO: 2 estrelas

CAPACETE DE CONTROLE CEREBRAL
Qual  a ideia: Ler  e influenciar  a mente dos soldados durante ocombate.
O que esto fazendo: J existem aparelhos de estimulao magntica que interferem nos sinais eltricos do crebro e so capazes de provocar efeitos simples, como fazer a pessoa sentir medo. A Darpa quer levar isso um passo alm, e criar um capacete que possa ler os pensamentos dos soldados (algo j demonstrado, de forma primitiva, em laboratrio) e interferir neles. A agncia est desenvolvendo um prottipo que estimula certas regies do crebro, deixando o soldado mais alerta e com menos estresse.
CHANCE DE DAR CERTO: 3 estrelas.

AVATAR DA VIDA REAL
Qual  a ideia: Robs guerreiros que so controlados por seres humanos  e tomam o lugar deles no campo de batalha. Mais ou menos como no filme Avatar. 
O que esto fazendo: Darpa j testou com sucesso o Petman, um rob bpede que tem 1,80 metro de altura e consegue correr, agachar e fazer flexes. Ele poder carregar equipamentos e at portar armas, mas por enquanto desempenha uma tarefa mais prosaica: serve como manequim para testes de trajes militares.  muito provvel que robs cheguem s guerras. Mas os primeiros sero quadrpedes como o Alpha Dog, o rob-cachorro da Darpa, que consegue transportar cerca de 180 quilos de suprimentos. A Chita, outro rob de quatro patas em desenvolvimento pela agncia, acaba de bater um recorde de velocidade  conseguiu correr a 29 km/h. Ela foi criada para transportar soldados na garupa.
CHANCE DE DAR CERTO: 4 estrelas

BASE MILITAR NUCLEAR
Qual  a ideia: Instalar pequenos reatores nucleares nas bases militares americanas, para que elas se tornem autossuficientes em energia. 
O que esto fazendo: A agncia est estudando alguns modelos de mini-reator, que seria alimentado por urnio enriquecido a 2%  muito menos potente do que seria necessrio para fazer uma bomba atmica. Isso evitaria que terroristas e exrcitos inimigos tentassem invadir as bases dos EUA para roubar o combustvel.
CHANCE DE DAR CERTO: 3 estrelas

O ROB CIRURGIO
Qual  a ideia: Dispensar a presena de mdicos humanos no front.
O que esto fazendo: O rob mdico dever ser capaz de realizar 4 tarefas para tratar soldados feridos. Primeira: injetar contraste em uma veia e fazer uma tomografia rpida. Segunda: encontrar as costelas do paciente, espetar uma agulha no meio delas e reinflar o pulmo (caso tenha sido perfurado por estilhaos). Terceira: inserir um tubo na boca ou por fora da traqueia para ajudar na respirao do soldado. Quarta: estancar hemorragias. So coisas extremamente complexas para um rob  tanto que a concluso do projeto s est prevista para 2025.
CHANCE DE DAR CERTO: 3 estrelas e meia

INTERIOR DA TERRA EM 3D
Qual  a ideia: Enxergar tudo o que existe no subsolo  inclusive bunkers que possam esconder inimigos dos EUA. 
O que esto fazendo: No comeo dos anos 60, a Darpa inventou tecnologias que levaram  descoberta das placas tectnicas. Agora, ela quer combinar vrios tipos de sensor para gerar mapas 3D do subsolo, revelando tudo o que existe a at 5 km de profundidade. Alm de encontrar bunkers, o sistema poder tornar mais fcil prever terremotos, erupes vulcnicas e tsunamis. A nova tecnologia tem estreia prevista para 2015.
CHANCE DE DAR CERTO: 4 estrelas

VISO ELETRNICA
Qual  a ideia: Permitir que o soldado possa consultar informaes teis, como mapas, sem desviar o olhar do combate.
O que esto fazendo: Desenvolvendo uma lente de contato que sobrepe uma imagem ao olho. No centro da lente, h uma microtela circular que fica bem em cima da pupila. Funciona, mas a resoluo ainda  muito baixa.
CHANCE DE DAR CERTO: 4 estrelas

DETECTOR DE GASES
Qual  a ideia: Monitorar o ar das cidades americanas para detectar possveis ataques com armas qumicas ou biolgicas.
O que esto fazendo: A agncia j possui um sistema que  capaz de detectar a presena de substncias txicas mesmo em concentraes baixssimas, a partir de 20 ppt (partes por trilho).
CHANCE DE DAR CERTO: 4 estrelas

CURA DA OBESIDADE
Qual  a ideia: Evitar que os soldados americanos fiquem gordos (sim, at eles sofrem com esse problema). 
O que esto fazendo: Estudando o tecido adiposo marrom, um tipo de gordura que queima calorias (segundo um estudo da Universidade de Quebec, at 250 calorias a cada 3 horas). O tecido adiposo marrom j existe naturalmente no corpo humano, mas em quantidade muito baixa (e suas clulas s ficam mais ativas em ambientes frios, quando trabalham para aquecer o corpo). A ideia dos militares  criar a gordura marrom em laboratrio e implant-la nos soldados, via injees na barriga.
CHANCE DE DAR CERTO: 2 estrelas e meia.

PARA SABER MAIS
How DARPA Is Remaking Our World 
Michael Belfiore, Harper 2010.


3. CINCIA  TUDO O QUE VOC SEMPRE (NUNCA) QUIS SABER SOBRE AS BARATAS
Elas esto modas no seu chocolate, sobrevivem a at um ms sem cabea e comem seres humanos vivos. (Agora a boa notcia: elas no resistiriam a um ataque nuclear). Conhea o nojento mundo dessa obra-prima da evoluo: a barata.
TEXTO ANA CAROLINA PRADO 
DESIGN RAFAEL QUICK
ILUSTRAO PATRICK MELGAO

GNIO DO DESIGN
Conhea milmetro a milmetro o inseto highlander.

CASCA DURA - Para proteger o interior delicado, elas so revestidas por um casco duro de quitina. O formato achatado permite que elas suportem esmagamentos leves sem morrer.
ANTENADA - Dotadas de pequenos pelinhos ultrassensveis, as antenas das baratas captam odores e podem, dependendo da espcie, detectar a presena de gua, lcool ou acar nas proximidades.
CREME - A massa branca que sai quando voc esmaga uma barata  gordura e protege os rgos internos. Ela permite que o inseto fique dias sem comer.
FLEGO - A barata respira por 20 aberturas laterais chamadas espirculos, que levam o ar para o corpo todo. Assim, pode ficar horas sem oxignio.
RADAR - Esses espinhos no traseiro do informaes detalhadas sobre ameaas: percebem movimentos sutis do ar e captam informaes sobre possveis ameaas, como localizao, tamanho e velocidade.
FILHOTES - A maioria das baratas guarda seus ovos em um recipiente chamado ooteca, que fica dentro do corpo. Algumas espcies seguram os filhotes dentro de si at estarem prontos para ir ao mundo; outras largam a ooteca em um lugar seguro para os ovos eclodirem sozinhos.

A BARATA DOS VIZINHOS
So 5 mil espcies do inseto que vive na Terra h 325 milhes de anos. Eis as principais:
NOME: Barata americana
TAMANHO: 3 a 4cm
LONGEVIDADE: 3 a 4 anos
HABITAT: Ambientes escuros como stos, pores e esgoto.
Comuns no mundo todo, so maiores, e fazem voos curtos.  a espcie mais resistente, fica 90 dias sem comida e 40 sem gua. Acredita-se que tenham vindo da frica em navios negreiros.

NOME: Barata germnica
TAMANHO: 1,2 a 1,6 cm
LONGEVIDADE: 1 ano
HABITAT: Cozinhas e banheiros, despensa de alimentos, mquinas de caf. 
Elas tm asa, mas no voam e so as mais comuns nas cidades da Amrica. Vivem at 45 dias sem comida e 14 sem gua. Acredita-se que tenham ido para a Europa com os fencios.

NOME: Barata de Madagascar
TAMANHO: 5 a 9 cm
LONGEVIDADE: 2 a 5 anos
HABITAT: No cho de florestas tropicais, principalmente Madagascar. 
Esta espcie no  considerada uma praga urbana  na verdade,  at criada como bicho de estimao. So famosas pelo alto assobio que fazem quando se sentem ameaadas.

TAMBM VO PEGAR VOC
Poucos bichos so to liberais quanto as baratas quando se trata de alimentao. Elas comem praticamente tudo. E isso inclui coisas bizarras como cola, fezes, papel, couro, outras baratas e cerveja azeda quente, que  seu alimento preferido. (A nica coisa que odeiam  pepino  sabe-se l por qu.) E elas tambm curtem comer seres humanos  vivos ou mortos. Sim, elas mordem gente viva (que est dormindo)  sempre nas extremidades: de-do e sola dos ps, unhas e palmas das mos. Tambm h relatos de baratas que comem clios. Elas no tm dentes, mas usam sua forte mandbula para raspar as superfcies at deixar buracos doloridos. Tambm podem se alimentar de restos de comida, especialmente de leite seco na boca de bebs que esto dormindo. As crianas so mais suscetveis por terem o sono mais pesado, mas adultos tambm no escapam. Se voc  do tipo que curte tomar cerveja e comer salgadinho no sof e acaba dormindo por l mesmo, chegou a hora de repensar sua vida.

SEXO EXPLCITO
Uma Loucura. Observe aqui, de perto, o que s acontece atrs das paredes: o ritual de acasalamento da barata americana, a voadora. Ui.
1- Essa espcie pode produzir at 800 descendentes nos seus 4 anos de vida.  A germnica, que vive 1 ano, gera at 20 mil
2- Veja a atitude sensual da fmea: ela abaixa o abdmen, levanta as asas e libera feromnios. Se o macho topar, ela sobe nele.
3- Enquanto escala o macho, ela vai lambendo suas costas. Assim, ingere uma substncia especial, produzida na corte.
4- O macho no perde tempo: vai tentar introduzir a genitlia na fmea por baixo, para iniciar a cpula.

BOATOS SOBRE AS BARATAS
ELAS RSISTEM A ATAQUES NUCLEARES - Mentira. O mito provavelmente surgiu na dcada de 1960, com o relato nunca confirmado de que baratas teriam sobrevivido s bombas de Hiroshima e Nagasaki.  verdade que, comparadas com no-insetos, elas so resistentes: por terem poucas clulas que se dividem lentamente, conseguem consertar alguns problemas causados pela radiao. Mas outros seres vivos so muito mais resistentes, como certas algas, musgos e bactrias. E at alguns insetos so mais fortes: enquanto a barata americana aguenta at 20 mil rads (unidade de radiao absorvida), o caruncho de madeira aguenta 48 mil, e a mosca-das-frutas, 64 mil. Uma bomba como a de Hiroshima tem 34 mil rads. Ou seja, elas no sobreviveriam.
ELAS SOBREVIVEM SEM CABEA - Verdade. Baratas so sobreviventes. Alm de conseguir ficar at um ms sem comer nada e semanas sem ingerir gua, o inseto ainda  capaz de sobreviver por at outro ms sem a cabea.  que suas principais estruturas vitais ficam espalhadas pelo abdmen (incluindo as que permitem a respirao) e, caso percam a cabea (no sentido literal), um gnglio nervoso no trax passa a coordenar os seus movimentos, permitindo que fujam das ameaas. Como o seu corpo tem um revestimento de clulas sensveis  luz, ela ainda pode localizar e correr para as sombras a fim de se proteger. Mas, como todos, inevitavelmente um dia acaba morrendo.
ELAS ESTO NO CHOCOLATE - Verdade. Segundo a Food and Drugs Administration (FDA), o rgo que faz o controle dos alimentos e remdios nos EUA, uma barra de chocolate comum contm, em mdia, 8 resduos de baratas. (Um pedao de 100 gramas de chocolate tinha, em mdia, 60 resqucios de insetos variados em sua composio.) O inseto entra em contato com o doce ainda durante a colheita e armazenamento do cacau. E mais: pessoas que tm alergia ao chocolate podem, na verdade, ser alrgicas aos pedacinhos de baratas que ficam no doce. O inseto pode causar reaes alrgicas em algumas pessoas, como coceira e cibras, e cortar o chocolate da dieta  justamente um dos tratamentos recomendados a pessoas alrgicas.

Fontes: Lucy Figueiredo, biloga especialista em baratas da Associao Brasileira de controle de vetores e Pragas  ABCVP, Marcos Roberto Potenza, pesquisador do Instituto Biolgico de So Paulo, The Cockroach Papers: a compendium of History and Lor, de Richard Schweid.


4. CINCIA  SUPER POLIGLOTAS
Falam at 10 lnguas ao mesmo tempo!
Armazenam mais de 100 idiomas na memria!

Como funciona a cabea dos hiperpoliglotas, pessoas que aprendem dezenas de idiomas e que podem mostrar o caminho dos limites do crebro.
TEXTO CAROL CASTRO
DESIGN RAFAEL QUICK
ILUSTRAO OSILVA

     Ler Dostoivski em portugus  para os fracos. Carlos Freire queria devorar Crime e Castigo e outros clssicos russos no original. Aos 20 anos, ele mergulhou nos livros e se mudou para a casa de uma famlia russa em Porto Alegre. Em poucos meses, dispensou os tradutores. E no era seu primeiro idioma estrangeiro. Logo cedo, a proximidade com o Uruguai o deixou afiado no espanhol. Depois, aprendeu francs, latim e ingls. O caminho da faculdade era claro: Letras. Quanto mais idiomas voc sabe, mais fcil aprender outros. Os 10 primeiros so os mais difceis, diz. Sim, 10. Aos 80 anos, Freire j estudou 135 lnguas  de japons a esperanto.  mais do que o padre italiano Giuseppe Mezzofanti, que ficou notrio no sculo 18 por ouvir confisses na lngua nativa dos estrangeiros. Especula-se que ele falava entre 61 e 72 idiomas e lia em 114.
     Os dois integram um seleto time de pessoas que conseguem aprender dezenas de idiomas. No so s poliglotas. Quem  fluente em mais de 6 lnguas tem um ttulo maior: hiperpoliglota. O termo foi definido em 2003 pelo linguista britnico Richard Hudson. Ao estudar comunidades poliglotas, ele descobriu que o nmero mximo de idiomas falados em comum por todos os moradores  6. Ainda no se sabe o motivo exato de serem 6 lnguas. O que se sabe  que os hiperpoliglotas so diferentes de bilingues ou meros falantes de 3 ou 4 lnguas. E que os limites do crebro deles podem ajudar a cincia a buscar os limites do nosso crebro.

IDADE  TUDO
     Mezzofanti entrou na escola aos 4 anos, onde aprendeu 3 idiomas. Aprender lnguas na infncia faz toda a diferena. Aps a puberdade, os hormnios dificultam a reproduo de um sotaque mais autntico. Se voc aprende francs aps os 14 anos, por mais que estude, provavelmente vai soar como um brasileiro fluente em francs  mas no como um francs. Vrios estudos comprovaram essa tese. Um deles selecionou 46 adultos chineses e coreanos que moraram nos Estados Unidos em diferentes fases da vida. Os que chegaram ao pas at os 7 anos tiveram resultados semelhantes aos de nativos. Quem chegou aos EUA com mais de 15 anos teve desempenho pior.
     Isso ocorre porque, com o tempo, o crebro parece endurecer. Conforme crescemos, ele forma estruturas neurais confiveis para orientar as aes que tomamos.  uma base de conhecimento que guia as experincias e responde s situaes do dia a dia.  medida que mais estruturas neurais se formam, o crebro perde flexibilidade. E ela  importante para aprender coisas complexas, como falar uma lngua. Pesquisadores acreditam que os hiperpoliglotas conseguem prolongar essa plasticidade. Eles so como um experimento natural sobre os limites humanos, diz Michael Erard, linguista e autor do livro recm-lanado Babel no More (indito em portugus). No  de se estranhar, portanto, que ainda hoje Freire mantenha o ritmo de aprender de dois a 3 idiomas por ano.
     Falar pode parecer um ato simples, mas exige vrias tarefas do crebro: percepo auditiva, controle motor, memria semntica, sequenciamento de palavras. Para assimilar um novo idioma, o crebro precisa entender as estruturas do som e das palavras. E, at chegar a isso, o aprendizado percorre um longo caminho pelos hemisfrios esquerdo e direito do crebro.
     Com vrios pontos de parada, no  difcil perceber a complexidade disso tudo. E cada coisa nova que se aprende (como tocar um instrumento musical) no percorre exatamente o mesmo caminho. J se sabe que aprendemos melhor uma lngua na infncia. Mas essa vantagem da juventude no se estende, necessariamente, a todos os outros aprendizados da vida. Ser um gnio no piano porque comeou a tocar aos 5 anos pode no ter nada a ver com plasticidade. No importa a idade, dizem que voc precisa de 10 mil horas para tocar bem um instrumento. Ou seja, tocar melhor porque aprendeu aos 5 anos pode ser apenas uma vantagem incidental, porque teve mais tempo para estudar, diz Diogo Almeida, professor de psicologia da Universidade de Nova York e especialista em lingustica. Ou seja, por mais que hiperpoliglotas consigam adiar o enrijecimento do crebro, a maior contribuio deles para a cincia  outra  e um tanto mais bvia: acmulo de conhecimento. Memria.
     Aprender dezenas de lnguas no  o mesmo que ser fluente em vrias ao mesmo tempo. O americano Gregg Cox, citado no Guinness Book como o maior linguista vivo (64 lnguas e 11 dialetos) conseguia se comunicar em apenas 7 idiomas ao mesmo tempo. Freire encarou um desafio maior em Moscou. Durante uma reunio com estrangeiros, teve de falar em 10 idiomas diferentes. E conseguiu. Michael Erard realizou uma pesquisa com 172 hiperpoliglotas e constatou que a maioria pode manter de 5 a 9 lnguas ativas na memria. As outras ficam guardadas em outra rea, a memria de longo prazo, como se fossem arquivos comprimidos no computador. O conhecimento est l, mas no pode ser acionado instantaneamente. Leva um tempo para reabri-los. Freire, por exemplo, explica que, para relembrar um idioma, ele precisa de uma semana de estudo.  possvel ativar mais lnguas, mas exigiria um tremendo esforo, diz Erard. Alm do mais, essas pessoas tm outras coisas para fazer. Quem volta do exterior falando outra lngua em vez de portugus j passou por algo semelhante. H uma reprogramao no crebro. Agora imagine conversar em 10 idiomas ao mesmo tempo. Pois .

POLIGLOTAS DE NMERO!
No s de idiomas se faz uma mente brilhante.
Carlos Freire aprendeu mais de 100 idiomas, mas  ruim com nmeros.  J o aposentado Joo Vicente escreve as primeiras 5 mil casas decimais do Pi em uma hora.  E isso no tem a ver com memria fotogrfica, algo que nunca foi comprovado, alis.  Em 1979 o pesquisador americano John Merrit publicou em revistas e jornais uma imagem com 10 mil pontos, que deveria ser vista com o olho esquerdo tampado.  Depois, ele publicou uma segunda imagem com outros 10 mil pontos, para ser analisada com o olho direito fechado.  Quem conseguisse memorizar os 20 mil pontos conseguiria ver um objeto. De 1 milho de respostas, s 30 estavam corretas. Depois, Merritt refez o teste, mas ningum acertou.

LABIRINTO
Para transformar sons em palavras que fazem sentido, a linguagem faz um longo caminho no crebro.
A- DURANTE A CONVERSA - O crebro ativa o lobo parietal inferior e frontal posterior, reas responsveis pela parte mecnica da fala.
Os hemisfrios esquerdo e direito do crebro entram em ao para entender e emitir sons. Mas qualquer buraco nas principais regies compromete a conversa. E a bolinha da linguagem no completa o trajeto.
B- COM SENTIDO  O crebro ativa as regies do lobo temporal inferior e central.  Essa rea  responsvel por decifrar as frases e dar a elas significados compreensveis.
C- WERNICKE - O neurologista alemo Karl Wernicke constatou que pessoas com leses nessa rea no formam frases coerentes.
D- BROCA - Fica no lobo frontal. Ao analisar leses cerebrais, o neurologista Paul Broca descobriu que a dificuldade em falar acontece quando h problema nessa rea. A pessoa consegue formar frases coerentes, mas  incapaz de emitir os sons das palavras.

CAIXA ELSTICA
     Quando Freire saiu de um dilogo em russo para conversar em alemo, seu crtex pr-frontal mudou a chave da linguagem. Essa rea do crebro conta com a ajuda da memria ativa. A quantidade de lnguas que um hiperpoliglota controla ao mesmo tempo d uma dimenso do espao da memria ativa. E, apesar de treino, expandir essa caixa no parece muito possvel. Informaes novas chegam, velhas vo para a memria de longo prazo. Ou somem.
     Se por um lado a memria ativa guarda relativamente pouca coisa, a memria de longo prazo tem um espao maior. E mais flexvel. Na pesquisa de Erard, os entrevistados conseguiam, em mdia, aprender 30 idiomas. Perto das faanhas de Freire, Cox e Mezzofanti, parece pouco. Mas  a que outros pontos entram em cena. O primeiro  a gentica. Segundo cientistas da Universidade de Mnster, na Alemanha, a habilidade em aprender idiomas envolve diferenas genticas nos neurotransmissores do hipocampo, a rea que transforma informaes temporrias em permanentes. As filhas de Freire, por exemplo, falam mais de 3 lnguas. Tm facilidade, mas nunca quiseram aprender mais. E motivao  fundamental. Freire aprendeu novas lnguas porque queria ler os clssicos sem encarar tradutores. Mezzofanti usava a facilidade com idiomas dentro da religio  diz a lenda que ele, uma vez, aprendeu um novo idioma, em menos de um ms, apenas para ouvir a ltima confisso de um homem condenado  morte. A gentica ajuda, mas o fator determinante  outro: a velha e batida vontade de aprender.
     O jornalista americano Joshua Foer comprovou isso. Ele foi desafiado a fazer um treinamento intensivo para participar de um campeonato de memorizao nos EUA. Foer era pssimo para lembrar coisas simples (onde deixou as chaves, por exemplo). Topou o desafio e, um ano depois, ganhou o campeonato. Basicamente, ele aprendeu a organizar as informaes no crebro e a traar caminhos para encontr-las. Freire faz o mesmo. H 50 anos, ele dedica pelo menos 3 horas dirias de estudo, com uma meta em mente: aprender 3 idiomas por ano. Essas pessoas mostram que  possvel expandir a capacidade de guardar informaes na caixinha de longo prazo, sem precisar de um QI acima da mdia. Se a memria ativa mostra um limite pouco mutvel, a memria de longo prazo parece aumentar de acordo com a vontade de cada um. Mas, afinal, qual a vantagem em guardar tanta coisa?

MEMRIA PARA QU?
Freire l romances no original e ganha dinheiro com traduo e aulas. A neurocientista Ellen Bialystock, da Universidade de York, no Canad, afirma que pessoas que falam mais lnguas apresentam maior capacidade de concentrao e se tornam mais distantes do Mal de Alzheimer. Ela estudou casos de 211 pacientes e concluiu que os bilngues adiaram os sintomas da doena em at 5 anos, quando comparados a um monolngue. Eles mantm o crebro ativo.
     Mas com a internet no bolso e vrias maneiras tecnolgicas de guardar e acessar informao, qual  a utilidade prtica da memorizao? Precisamos decorar menos informaes. E a nossa cabea j est mudando. Estudos indicam que o Google modificou a memria das pessoas: deixamos de decorar quando sabemos que h uma fonte externa de armazenamento de informao. Pare e pense: quantos nmeros de telefone voc sabe de cor? Provavelmente bem menos do que sabia antes da popularizao das agendas nos celulares. Tornamo-nos dependentes dela [dessa fonte externa] no mesmo nvel que somos dependentes de todo o conhecimento que recebemos dos amigos. A, perder a conexo parece perder um amigo, diz o estudo. Ficamos apegados ao fato de que a tecnologia aumenta exponencialmente o acesso a informao e conhecimento. A internet parece cuidar cada vez mais disso. Expandir a memria  difcil, mas possvel. O desafio maior  querer.

LABIRINTO 2.0
O lado direito do crebro d sentido s palavras. J o lado esquerdo  responsvel por ouvir e falar.
A- DIRETO E RETO - Com a prtica do idioma, o lado esquerdo trabalha mais do que o direito, j que entender frases fica quase automtico.
O neurocientistas David Poeppel e Greg Hickok descobriram que no aprendizado de uma nova Lngua, o lado direito do crebro trabalha mais.  l que as palavras e frases ganham sentido.
B- CAIXA CHEIA - Lnguas que dominamos ficam na memria ativa, que tem limite. Hiperpoliglotas guardam at 10 lnguas a.
C- CAIXA ELSTICA - Informaes velhas vo para a memria de longo prazo. As dezenas de lnguas estudadas pelos hiperpoliglotas esto a. Mas  preciso treino para reativ-las.

PARA SABER MAIS
Babel No More
Michael Erard, Free Press, 2012
A Arte e a Cincia de Memorizar Tudo
Joshua Foer, Nova Fronteira, 2011


5. ZOOM  PENDURANDO OS MOTORES
Depois de 135 misses, chegou a hora de descansar.  Com a aposentadoria dos nibus especiais, a poeira dos museus aguarda esses gigantes.  Como em um ferro-velho, peas sero guardadas e reaproveitadas no prximo projeto da Nasa.
TEXTO LUIZ ROMERO
DESIGN Raphael Galassi

PEA DE MUSEU - Em 30 anos, 5 naves subiram ao espao. Challenger e Columbia explodiram. Sobraram Atlantis, Discovery e Endeavour (alm de um prottipo, a Enterprise), que sero levadas a museus americanos. A movimentao  feita com guindastes gigantes e avies Boeing 747 modificados especialmente para essa funo.

A VIAGEM FINAL - Propulsores localizados no bico da Atlantis ajudam a realizar manobras complexas no espao, como os giros necessrios para voltar  Terra. Em julho, a nave completou a ltima misso do programa de nibus espaciais. Mantida pela Nasa, ficar exposta no Centro Espacial Kennedy, na Flrida.

O MAIS VIAJADO - Esta foi a ltima vez que as luzes do painel de controle da Discovery foram acesas. Com 27 anos de atividade, a nave  uma recordista: fez
39 misses. Entre os grandes feitos, est o lanamento do Hubble, em abril de 1990, e duas viagens de manuteno do telescpio espacial. A partir deste ano, ficar estacionada no Museu Aeroespacial do instituto Smithsonian, na Virgnia.

PARAFERNLIA RECICLADA  Os motores, capazes de queimar oxignio e hidrognio lquidos a 3300 C, foram trocados por rplicas e sero reaproveitados no novo projeto de explorao espacial da Nasa. Enquanto as sucessoras no ficam prontas, a agncia espacial americana depende das naves Soyuz, mantidas pela Rssia, para levar astronautas  Estao Espacial Internacional.

PORTA-MALAS ESPACIAL  Com 20 metros de comprimento e 6 de largura, a rea de carga j carregou peas para a Estao espacial Internacional e um satlite de 25 toneladas.  Assim como os motores, os tanques do sistema de propulso sero removidos para possvel reutilizao.

ENCONTRO DE GIGANTES - Capazes de chegar a 28 mil km/h, Endeavour e Discovery diminuem o passo e posam para uma foto nica, enquanto trocam de hangar, no Centro Espacial Kennedy. A Endeavour, caula dos nibus espaciais, lanada em 1992, ser levada para o Centro Cientfico da Califrnia, em Los Angeles. A aposentadoria das naves abre espao para novos projetos, como a explorao de Marte e uma eventual volta  Lua.

Em abril usurios do Instagram fizeram uma cobertura do transporte da Discovery. As imagens foram publicadas com a hashtag#spottheshuttle.

NO SITE
Veja as fotos em: abr.io/shuttle


6. TECNOLOGIA  O PODER DA MASSA
Com o dinheiro de milhares de desconhecidos, projetos que pareciam impossveis esto saindo do papel. O segredo: os financiadores no querem lucrar  entram nessa pela ideia e pelo ideal.
TEXTO LUIZ ROMERO
DESIGN RICARDO DAVINO
ILUSTRAO PEDRO MELO

     Voc provavelmente j conhece essa histria: cansados de serem ignorados por bandas internacionais, alguns cariocas resolveram juntar dinheiro (entre pessoas que no se conheciam, mas gostavam do mesmo som) e convidar atraes gringas para tocar na cidade. Nascia o Queremos, um site de financiamento coletivo: um tipo de vaquinha virtual feita por apoiadores de uma mesma ideia.
     A novidade  que esse tipo de financiamento, o crowdfunding, tambm tem funcionado para criar empresas. Vrios produtos, inclusive, se tornaram realidade com a ajuda do financiamento coletivo. Um dos mais famosos  uma ala que transforma o iPod Nano em relgio  o sujeito que teve a ideia recebeu doaes de dezenas de milhares de pessoas para desenvolver a pulseira. E acabou com quase US$ 1 milho no bolso. Outro criou um dock bonito de iPhone feito em alumnio. Recebeu US$1,4 milho.
     Quem faz a coleta de dinheiro para esse tipo de projeto so especialistas em financiamento coletivo. Sites como o IndieGoGo e o RocketHub ajudam pessoas do mundo todo a pedir dinheiro para desenvolver suas ideias. S em 2011, o Kickstarter, um dos principais portais de crowdfunding, registrou 27 mil projetos, ajudados por 30,5 milhes de pessoas (veja mais no grfico ao lado). No Brasil, a movimentao ainda est comeando, tocada por sites como o Incentivador, o Catarse e o prprio Queremos  por eles e pela torcida do Palmeiras, que tentou usar o crowdfunding para trazer o meia Wesley (a vaquinha no deu certo). Mas o que no falta so casos que deram. Veja aqui. 

O CHUTE INICIAL - No ano passado, o Kickstarter recebeu 27 mil projetos e US$ 99 milhes
TOTAL DE PROJETOS
2010  11 mil projetos
2011  27 mil projetos

NMERO DE VISITANTES
2010  8,2 milhes
2011 30,5 milhes

INVESTIMENTO POR REA (em 2011)
Filmes US$ 32,4 mi
Msica US$ 19,8 mi
Design US$ 9,1 mi
Arte US$ 5,9 mi
Editorial US$ 5,1 mi
Tecnologia US$ 4,6 mi
Teatro US$ 4 mi
Jogos US$ 3,6 mi
Comida US$ 2,8 mi
Fotografia US$ 2,1 mi
Quadrinhos US$ 1,7 mi
Moda US$ 1,3 mi
Dana US$ 1 mi

UMA CIDADE FINANCIADA
Imaginamos uma metrpole construda com fundos coletivos. Seramos mais politizados e teramos cervejas melhores.

+ Cervejarias artesanais - As microcervejarias fazem parte de um dos setores mais ativos do crowdfunding. Elas oferecem produtos com uma aura de exclusividade, de produo caseira e cuidadosa. E tanta singularidade no custa caro: no Kickstarter, um projeto que pretendia construir uma cervejaria artesanal arrecadou US$40 mil.
+ Arte nas paredes - Em um mundo financiado, no faltariam projetos que misturam arte e ativismo scia. Em Londres, um grupo de artistas resolveu transformar um muro em galeria. Juntaram US$ 33 mil. Para tentar diminuir a violncia e unir a comunidade, um grupo queria pintar as paredes da cidade mexicana de Puebla. Conseguiram US$ 30 mil.
+ Protestos nas ruas - S no Kickstarter, so quase 100 projetos relacionados ao movimento Occupy. Jornais revistas, filmes e livros dedicados a registrar as ocupaes ao redor do mundo. Os ativistas tambm pedem dinheiro para fazer placas e cartazes. J conseguiram verba at para bonecos gigantes, que foram usados durante uma performance em Nova York.
+ Espaos verdes - Outra onda no mundo do crowdfunding  aumentar os espaos verdes em centros urbanos. Com US$ 23 mil, um pessoal do Brooklyn, em Nova York, construiu uma horta de 4 mil m2 no topo de um prdio. Com US$ 27 mil, dois amigos transformaram um caminho em estufa e viajaram o pas dando aulas de agricultura.
+ Produtos sustentveis - Nas lojas de roupa desta cidade crowd financiada, as colees so pensadas para quem quer se vestir sem matar vacas e poluir rios. No mundo real, tem at uma Eden Outfitters, verso verde de uma loja americana chamada Urban Outfitters. No Kickstarter, a segmentao  forte, com roupas para mulheres ciclistas e viciados em beisebol.

NO BRASIL
Conhea os projetos mais populares por aqui. 
+ Bandas internacionais - Os shows de bandas internacionais (e um pouco desconhecidas) aconteceriam toda semana. O Queremos j trouxe Vampire Weekend, Kings of Convenience e Foster the People. E quem investiu no evento entrou de graa.
+ Documentrios no cinema - Nos cinemas desta cidade, s daria documentrio. O gnero tem se beneficiado muito com o crowdfunding. O portal Incentivador ajudou na produo do recm-Lanado Raul: o Incio, o Fim e o Meio e financiou Cauby: Comearia Tudo Outra Vez.
+ Msica - Aqui  bem mais fcil ter e manter uma banda. Com a ajuda do site Catarse, A Banda Mais Bonita da Cidade financiou cada uma das faixas do primeiro disco. Das 12 msicas cadastradas, 11 receberam a grana suficiente e foram gravadas. O portal s trabalha com projetos culturais  revistas, livros, filmes e discos.

